Os primeiros assentamentos humanos na região, em sua etapa histórica, datam de cerca de três milênios, sendo essas culturas iniciais amalgamadas por gregos e fenícios. Ao longo da História a região foi transformada em um grande caldeirão étnico, desde a criação da Comuna Italiana, pelos romanos, no século II a.C., delimitada pela atual província de Cosenza. Muitos foram os donos desse território, que travaram muitas guerras de conquistas após a queda do Império Romano, como os francos, saxões, germânicos, bizantinos, sarracenos e mouros, o que conferiu à Calábria uma face ma
rcada pela diversidade cultural.
Nessa terra o jovem Lo Tufo sonhava produzir seu próprio vinho, mas, ao contrário da tradição local, o desejava tinto, provavelmente com forma de pagar um tributo aos seus patrícios que derramaram o próprio sangue para defender o solo ancestral nas batalhas da unificação italiana.
Diante de tanta pobreza, violência e repressão, com os sonhos dando lugar ao medo, nada mais restava ao jovem empreendedor senão deixar para trás seu projeto vitivinicultor. Assim Lo Tufo e dois irmãos de aldeias próximas partiram rumo ao desconhecido, como fizeram muitos calabreses. Corria o ano de 1894.
Quando chegaram ao Brasil Francesco decidiu permanecer na cidade do Rio de Janeiro, enquanto seus irmãos seguiram, respectivamente, para São Paulo e Porto Alegre.
Em território carioca conheceu Rosa Jannuzi, brasileira e filha de italianos, levando-a ao altar e construindo uma extensa família de treze filhos, entre meninas e meninos, nascidos entre os anos de 1898 e 1924.
Já com a grafia de seu nome modificada – Lotufo -, talvez por alguma exigência cartorial do Rio de Janeiro, o laborioso moranese aprimorou suas habilidades no mundo da costura masculina (ofício aprendido na Itália) e foi contratado pela famosa Camisaria Progresso, da Rua da Carioca, onde trabalhou até a década de 1930.
O "nonno" Francesco trazia no sangue uma efervescência política dos anos revolucionários da Calábria, o que o empurrou para encontros com simpatizantes da república recém-instalada no país. No seu casarão do bairro do Catumbi, junto com sua família, reunia seus amigos políticos para discutir, às vezes por longas horas, os valores democráticos e humanísticos de um mundo ideal. E foi assim, contava ele, entre uma baforada de cachimbo e um gole de vinho tinto, sorvido em sua caneca de madeira, que conquistou a simpatia do presidente Rodrigues Alves, de quem tornou-se alfaiate exclusivo.
Também gostava de falar de sua paixão, o Fluminense Football Club, numa clara alusão às cores italianas, mas aceitava nas discussões sempre fervorosas, as dissidências de familiares e amigos, afinal, naquela casa, prevalecia a democracia, embalada por seu cachimbo e por um vinho tinto glorioso.
Enquanto arqueólogo, cientista social e professor de antropologia, reverenciamos a memória de nosso avô e demonstramos nosso carinho pelo povo moranese com a criação de um delicioso vinho tinto, macio conforme o desejo daquele talentoso alfaiate calabrês, que um dia sonhou produzir seu próprio vinho...Salute!


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