quarta-feira, 19 de agosto de 2015

História do Vinho Lotufo

Os gregos levaram essa uva para a região meridional, onde fundaram a sua colônia, a Magna Grécia, denominada "Enotia Tellus”(Terra do Vinho), na verdade, o berço espiritual do vinho italiano. Também da Grécia migraram osLoTufo (“o tufo” de rocha) e se estabeleceram em Murano, há mais de mil anos.

Os primeiros assentamentos humanos na região, em sua etapa histórica, datam de cerca de três milênios, sendo essas culturas iniciais amalgamadas por gregos e fenícios. Ao longo da História a região foi transformada em um grande caldeirão étnico, desde a criação da Comuna Italiana, pelos romanos, no século II a.C., delimitada pela atual província de Cosenza. Muitos foram os donos desse território, que travaram muitas guerras de conquistas após a queda do Império Romano, como os francos, saxões, germânicos, bizantinos, sarracenos e mouros, o que conferiu à Calábria uma face ma
rcada pela diversidade cultural.

Nessa terra o jovem Lo Tufo sonhava produzir seu próprio vinho, mas, ao contrário da tradição local, o desejava tinto, provavelmente com forma de pagar um tributo aos seus patrícios que derramaram o próprio sangue para defender o solo ancestral nas batalhas da unificação italiana.

Nos anos que se seguiram ao processo de anexação territorial de 1870, o sul da Península Itálica assistiu a um crescimento assustador de banditismo e miséria, fazendo da já desolada região um cenário sombrio e repulsivo.

Diante de tanta pobreza, violência e repressão, com os sonhos dando lugar ao medo, nada mais restava ao jovem empreendedor senão deixar para trás seu projeto vitivinicultor. Assim Lo Tufo e dois irmãos de aldeias próximas partiram rumo ao desconhecido, como fizeram muitos calabreses. Corria o ano de 1894.

Quando chegaram ao Brasil Francesco decidiu permanecer na cidade do Rio de Janeiro, enquanto seus irmãos seguiram, respectivamente, para São Paulo e Porto Alegre.

Em território carioca conheceu Rosa Jannuzi, brasileira e filha de italianos, levando-a ao altar e construindo uma extensa família de treze filhos, entre meninas e meninos, nascidos entre os anos de 1898 e 1924.

Já com a grafia de seu nome modificada – Lotufo -, talvez por alguma exigência cartorial do Rio de Janeiro, o laborioso moranese aprimorou suas habilidades no mundo da costura masculina (ofício aprendido na Itália) e foi contratado pela famosa Camisaria Progresso, da Rua da Carioca, onde trabalhou até a década de 1930.

O "nonno" Francesco trazia no sangue uma efervescência política dos anos revolucionários da Calábria, o que o empurrou para encontros com simpatizantes da república recém-instalada no país. No seu casarão do bairro do Catumbi, junto com sua família, reunia seus amigos políticos para discutir, às vezes por longas horas, os valores democráticos e humanísticos de um mundo ideal. E foi assim, contava ele, entre uma baforada de cachimbo e um gole de vinho tinto, sorvido em sua caneca de madeira, que conquistou a simpatia do presidente Rodrigues Alves, de quem tornou-se alfaiate exclusivo.

Também gostava de falar de sua paixão, o Fluminense Football Club, numa clara alusão às cores italianas, mas aceitava nas discussões sempre fervorosas, as dissidências de familiares e amigos, afinal, naquela casa, prevalecia a democracia, embalada por seu cachimbo e por um vinho tinto glorioso.

Enquanto arqueólogo, cientista social e professor de antropologia, reverenciamos a memória de nosso avô e demonstramos nosso carinho pelo povo moranese com a criação de um delicioso vinho tinto, macio conforme o desejo daquele talentoso alfaiate calabrês, que um dia sonhou produzir seu próprio vinho...Salute!


Cesar Lotufo